sábado, 10 de novembro de 2012

"A PRIMEIRA CHANCE"


Por Rafael Carvalho Machado



Chegou aquela época da vida em que não era mais possível permanecer dependente dos pais. Mesada? Nunca recebeu. Era coisa,para poucos privilegiados. Ganhos esporádicos daqui e acolá, porém inconstantes, não mais satisfaziam suas necessidades. Era o último estágio da adolescência. O passo seguinte era conseguir um emprego e mergulhar na vida adulta, com todos os reveses, vantagens e responsabilidades.

Encontrava-se nesta fase. Namorava firme, com a mesma pessoa há quase dois anos. Concluíra o ensino médio. Não tinha a menor chance de passar no vestibular, graças à péssima qualidade dos professores de seu curso de ensino médio, salvo raríssimas exceções, e o desinteresse próprio com o qual convivera durante os três anos de estudo. Sem possibilidade de estudar em faculdades particulares, vivia no limbo, entre o fim do ensino médio e o início do primeiro emprego.

Esta fase, experimentada por muitos, é bastante angustiante, pois como qualquer jovem queria e precisava trabalhar, mas a grande maioria das empresas, quando havia vagas, direcionava a seleção para trabalhadores já experientes.

Questionamento comum dos jovens nesta faixa etária é "se não nos deixam trabalhar, como é que adquirimos experiência?". Felizmente nos dias atuais, existem políticas governamentais que incentivam as empresas a contratar pessoas sem experiência, mas isso só passou a existir recentemente, antes a conversa era outra.

A alternativa encontrada e seguida por muitos jovens era fazer o máximo possível de cursos, como matemática financeira, relações humanas, práticas trabalhistas, práticas contábeis e por ai vai. Dessa forma o currículo vai ganhando robustez e compensando a falta de experiência profissional.

Com ele não foi diferente. Fez curso no Senac de digitação, de telemarketing e de matemática financeira. Aliás, foi o Senac que o encaminhou para a primeira oportunidade concreta de emprego.

Era um dia frio como são os dias de julho. A empresa situava-se no centro da cidade. Lá compareceu meia hora antes do horário previsto, vestindo roupas novíssimas que aguardavam ocasião merecedora de tal atitude. Como informado, não seria o único a ser encaminhado para análise da empresa contratante. Na sala de espera, logo a seguir chegaram uma jovem também encaminhada pelo Senac e aquele que seria o responsável pela seleção. Apresentou-se, explicou como seriam os testes e encaminhou ambos os pretendentes à vaga para uma sala contígua

O selecionador entregou um texto para que treinassem por 10 minutos, objetivando "esquentar" os dedos já que a temperatura girava em torno dos 10 graus. Decorrido o tempo concedido para treino, informou que o mesmo texto treinado seria o da prova de velocidade. Teriam os mesmos 10 minutos para comprovar que conseguiriam superar os 250 toques líquidos por minuto. Mostrou o cronômetro zerado, desejou boa sorte e deu o sinal de partida. Ouviam-se os frenéticos tlec-tlecs no computador. Ambos os pretendentes foram bons alunos. A noção de tempo foi para o espaço. O foco da atenção era totalmente direcionado para aquele momento. Tinha certeza de ter alcançado excelente pontuação, fato confirmado posteriormente. Sua concorrente, apesar do bom resultado, cometeu erros, ficando em segundo lugar, que naquele caso era sinônimo de último. 

Outros testes foram aplicados: raciocínio lógico, entrevista, ou melhor, duas entrevistas. No final de tudo, já próximo de meio-dia veio o veredito. Ele havia tido o melhor desempenho. 

O selecionador teve a delicadeza de chamar individualmente cada um dos concorrentes para evitar constrangimentos. 

No ato em que recebeu a notícia de que fora o escolhido, o selecionador perguntou se estava com os documentos necessários à admissão, que ocorreria dali a três dias. Entretanto, ao examinar o Certificado de Alistamento Militar constatou que o candidato ainda não havia sido dispensado do serviço militar.

- Ué! Você ainda não foi dispensado do serviço militar? 

- Não. Compareci no dia marcado, mas não fui nem admitido nem dispensado.

Disseram-me para retornar lá em janeiro do próximo ano.

- Puxa vida, que chato! Temos um problema. Sem ser dispensado ou já ter prestado o serviço militar não há como contrato-lo. Infelizmente para nós dois. Para nós pelo fato de você ter apresentado um ótimo desempenho nos testes de seleção, indicando que seria um bom colega de trabalho. Para você, por perder uma boa oportunidade profissional. Uma pena mesmo...

Ele ouviu e memorizou aquele discurso para o resto da vida e guardou grande mágoa com o serviço militar. A vida continuaria e prosseguir era preciso. 

Quem dá os primeiros passos rumo à vida profissional deve contar com possibilidades de sucesso ou insucesso. Por enquanto, continuaria a figurar no exército, mas no exército de desempregados.




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Rafael Carvalho Machado
rafaelcarvalhomachado@gmail.com
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